A violência no jornalismo: roteiro para discussão

Victor Gentilli (*)

O jornalismo da violência, conhecido como jornalismo policial, distingue-se das demais especialidades de jornalismo particularmente porque trata de pessoas privadas que praticaram ou sofreram algum ato de violência.

Quando reporta iniciativas de autoridades e outras pessoas cuja atividade profissional depende da visibilidade pública de suas ações, boa parte dos problemas éticos e profissionais do jornalismo estão resolvidos. Artistas, atletas, autoridades e políticos, grosso modo, são os personagens do jornalismo político, cultural, esportivo, etc. Aparecem nos jornais por sua ação direta.

No jornalismo da violência, o cidadão comum - que já foi em grande medida agredido pelo ato violento de que foi vítima - recebe nova agressão ao perder sua intimidade e privacidade.

A sociedade tem o direito de ser informada, mas jornais e jornalistas precisam refletir sobre formas e procedimentos desta cobertura com base na seguinte premissa: não dá mais para pensar a violência contemporânea com os critérios do jornalismo do passado.

O jornalismo policial que consagrou-se como padrão na imprensa brasileira vivia de casos esporádicos, eventuais. O volume de atos violentos era menor, a capacidade da polícia e da justiça de enfrentá-los era maior. É certo, precisamos recuperar as virtudes do velho jornalismo policial. Mas devemos ter clareza de que a violência mudou mais do que o jornalismo. Vejamos alguns traços da violência contemporânea, novos e nunca vistos antes:

1 - O crime organizado contemporâneo é um fenômeno novo e exige um tratamento jornalístico diferenciado. É preciso investimento, investigação, checagem. O narcotráfico hoje assume dimensões que exigem um novo modo de cobertura.

2- A violência cotidiana assume dimensões epidêmicas. No trânsito, nos bares, nas ruas, em casa, na família.

3 - A violência da loucura - estupros, assassinatos em série ou em famílias, crianças assassinas, linchamentos - há uma nova categoria de violência só explicável pela psicologia.

4- A violência institucionalizada - a violência policial, a injustica no campo e na cidade, a corrupção política, todas estas formas de violência que atingem o cidadão duplamente. Pelos seus efeitos diretos e - muito mais grave - pela descrença na democracia, na Justiça e nos mecanismos institucionais que deveriam realizar justiça social.

Ao lado destas novas características da violência há também novos problemas, desafios e dilemas nas coberturas jornalísticas:

1 - É lícito o uso de cameras secretas?

2 - É lícito o uso de identidades falsas?

3 - Há jornais que não noticiam suicídios ou têm normas rigorosas para publicá-los. O efeito Werther (personagem de Goethe) é sobejamente conhecido há um século. Será que tal efeito aplica-se apenas a suicídios?

4 - Os estudos mais recentes da violência optam por trata-lo como um problema de saúde pública. Não seria o caso de refletir o que deve mudar na cobertura a partir da perspectiva da violência como problema de saúde pública e não mais como caso de polícia? As editorias de polícia não estariam anacrônicas?

5 - Crianças e adolescentes muitas vezes tem suas identidades preservadas burocraticamente: "R. M. F., filho de Raimundo Medeiros, residente...". Criança e adolescente deve ter sua privacidade preservada sempre, seja agressor ou vítima de agressão. Vítimas de agressões e supostos agressores não deveriam ter suas identidades também protegidas?

O debate está aberto.

 

Gentilli, Victor. A violência no jornalismo: roteiro para discussão. Disponível em <http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos/iq050598e.htm>. Acesso em 19 out. 2005.